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Raves: a delicada discussão sobre drogas e o prazer pela música
No último final de semana, uma rave realizada na cidade de Andradas(MG) foi encerrada de uma forma trágica. Um jovem de 20 anos morreu no hospital após passar mal na festa e outro está internado em estado grave. Apesar de a produção do evento afirmar que substâncias ilícitas tinham entrada proibida, como sempre, as drogas foram apontadas como a causa dos incidentes.

O estereótipo
E isso não vem de hoje, nem de ontem. Governos de estados como o Rio de Janeiro e Santa Catarina chegaram a proibir a realização das raves, alegando que aquele era um território livre para a prática de atos ilícitos. Na verdade, desde o nascimento do estilo musical, no final da década de 1970, as batidas eletrônicas e os sons computadorizados sempre foram associados à psicodelia e ao transcender de consciência, estado mental alcançado, entre outros meios, pelo uso de entorpecentes.

A experiência sensorial é uma das características da dance music que levam os chamados “fritos” às raves, mas as drogas não são necessárias. Pelo menos é o que afirmam os festeiros de Salvador. “Quando alguém diz que precisa usar qualquer coisa para poder curtir uma festa, então tem algum problema aí”, garante o estudante Messias Pereira.

O livre-arbítrio
Messias frequenta raves em Salvador e região há mais de um ano e conta que sempre fez uso das substâncias. “Eu gosto dos efeitos da droga e por isso uso, acho a experiência interessante. Mas tive um belo aproveitamento de festas tanto sóbrio quanto sob efeito”, explica ele, que tem 19 anos. A presença dos alucinógenos nas raves, na opinião dele, é inevitável: “onde há pessoas, há drogas e todo mundo sabe disso”.

Proibir a presença das drogas é um dever da produção da festa, dada a ilegalidade das substâncias, como prevê o Artigo ll da Lei nº 11.343, de agosto de 2006. Na prática, porém, trata-se de uma questão de livre arbítrio. Essa é a opinião de Janaína Fialho, 30 anos. Ela curte festas rave desde os 20 e defende o poder de escolha. “Óbvio que a maioria compra, mas ninguém é obrigado. As pessoas são livres para fazer o que querem. Essa é justamente uma das filosofias das festas rave”, explica.

Qual seria então a razão para as pessoas escolherem por si mesmas fazer uso dos entorpecentes? A resposta para essa pergunta é dada por Alan Santos, de 25 anos. Festeiro desde os 22, ele revela o motivo pelo qual tanta gente escolhe se drogar: “as sensações são mais intensas, você aguenta mais tempo e não fica cansado”.
Raves: a delicada discussão sobre drogas e o prazer pela música
A escolha
A “energia extra” pode ser proporcionada por vários tipos de drogas. E é exatamente isso que muita gente vai buscar. “As drogas pesadas, como loló e doce, por exemplo, são para aqueles que vão para ‘viajar’, não pelo som. Quem realmente é apaixonado pelo som não precisa usar, porque já ‘viaja’ só com ele”, opina Alan.

As drogas intensificam a produção de serotonina, endorfina e demais substâncias no organismo, capazes de proporcionar prazer imediato. O corpo humano já produz essas substâncias por si só, com a ajuda de atividades físicas e intelectuais. Em entrevista ao iSaúde, a psiquiatra Julieta Guevara lembrou que, além dos efeitos considerados bons pelos usuários, as substâncias podem também causar males irreversíveis.

“Todas as drogas geram um tipo de lesão. O álcool, por exemplo, tem a toxidade cerebelar, hepática, pancreática, mas a maconha, por sua vez, tem a toxidade pulmonar igual ao cigarro e abre a possibilidade para uma esquizofrenia mais cedo”, explica a especialista.

Porém, a parte sóbria na rave é a que realmente importa e aquela que faz ela ser o que é: uma celebração repleta de amor, energia, respeito e muito trance music. As drogas existem, amigos. Isso ninguém pode negar, pois é a verdade. Cabe a nós não deixarmos que os efeitos ultrapassem o prazer que a música nos proporciona e nos resumimos a ela. Nós não somos isso.

Os sóbrios são caretas?
Escolher, então, tornou-se fácil para Cássia Miranda. Frequentadora das festas há dois anos, ela conta que ignora a pressão para usar o que quer que seja: “aparece muita gente oferecendo, mas explico a situação e fica de boa. Tenho essa ideia bem estabelecida na minha mente. A música já te deixa em transe, e isso já basta pra mim”.

Para a estudante, a escolha foi fácil, assim como curtir uma rave de 12 horas dançando sem parar. Tudo depende, então, do prazer que se sente com a música. “Careta pra mim é a galera que vai só para se drogar”, conclui.

Matéria do Blog Trancenda